A transformação da Amazônia deve unir tradição e inovação

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“Transformar a Amazônia não é uma questão apenas de financiamento, é preciso desenvolver políticas de forma igualitária em todos os nove países, porque a floresta é um organismo vivo”. Foi com essa afirmação que José Gregorio Díaz Mirabal, membro do povo Wakuenai Kurripako, originário da Amazônia venezuelana, e coordenador-geral da COICA (Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica), iniciou sua participação em painel realizado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) na COP26.

 

O “Painel Científico para a Amazônia (SPA)”, que contou com a participação de Mirabal, teve como objetivo lançar o primeiro Relatório de Avaliação da Amazônia, que aborda toda a região formada pelo bioma, constituída por nove países. O debate reuniu professores universitários e cientistas, além das diferenças culturais já existentes.

 

O estudo aponta que o desenvolvimento baseado em recursos significou que os países amazônicos passaram para os níveis mais altos nas exportações globais de carne bovina, ferro, ouro, madeira, cacau e soja. Essas transformações ocorreram em contextos de sociedades altamente desiguais, com grande parte da população indígena sem sequer ter cidadania, ou a exclusão das comunidades locais da sociedade civil ou do direito à terra, iniquidades que influenciam a dinâmica socioeconômica do país.

 

“Para recuperar e preservar a Amazônia, é preciso reconhecer a voz do nosso povo e respeitar nossos conhecimentos”, disse Mirabal. “Nós não cuidamos da floresta por causa de um projeto, nós cuidamos das florestas todos os dias para mantê-la viva”, complementou.

 

Agricultura sustentável

Para Marielo Peñas Claro, membro da Science Steering Committee, é preciso restaurar a agricultura, pela prática sustentável, a fim de reduzir o desmatamento, através de investimentos em ciência, inovação e tecnologia combinadas com o conhecimento dos povos locais e educação nas escolas e faculdades. Mercedes Bustamante, membro da Science Steering Committee e professora da Universidade de Brasília, acredita que o processo de transformação da Amazônia se dará através da Bioeconomia.

 

“Este será um pilar estratégico para a transformação e desenvolvimento da região, desde que inclua tanto a área rural quanto a urbana”.

 

O balanço de carbono nas áreas intactas da floresta é negativo: a floresta sequestra mais de 1 bilhão de tCO2e por ano (equivale à metade das emissões nacionais), mas esta taxa está diminuindo com a destruição da floresta. E a destruição vem por intermédio dos incêndios e a degradação florestal a longo prazo, que estão reduzindo a qualidade dos solos, emitindo gases causadores de efeito estufa, aumentando a mortalidade das árvores e reduzindo a capacidade da Amazônia de funcionar como um sumidouro de carbono.

 

Queimadas e desmatamento

Segundo Carlos Nobre, professor da Universidade de São Paulo, as queimadas são tão prejudiciais quanto ao desmatamento. “Se pararmos com essas práticas criminosas, a degradação também irá parar e assim conseguiremos alcançar um futuro sustentável para a Amazônia”, explicou.

 

A Diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Ane Alencar, afirmou que a COP26 foi um importante capítulo para evidenciar os desafios que a Amazônia enfrenta e para desenhar as ações que têm de ser realizadas para recuperar os territórios degradados.

 

“A fala precisa sair do papel e se traduzir em ações locais, do engajamento com o governo, sociedade e inovação tecnológica”, disse Alencar. “É necessário o endereçamento da crise climática global e criar uma governança da cadeia de valor ou, senão, declararemos que esse combate não impacta o planeta como um todo e que está tudo bem exportar o desmatamento por meio de produtos ilegais”.

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