O papel do conhecimento tradicional na bioeconomia

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“Os indígenas sempre praticaram a bioeconomia”. A afirmação é de Ivaneide Cardozo, indigenista que lidera a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé há quase 20 anos, e que participou de painel sobre o tema na última edição da Climate Week, em 23 de setembro. Organizado pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o debate tratou de sistemas produtivos baseados na utilização e na conservação de recursos biológicos, visando uma economia sustentável.

O painel virtual reuniu representantes de diversos setores e de diferentes regiões da Amazônia com objetivo de apresentar o potencial transformador da bioeconomia e contribuir com as discussões globais sobre o tema. A representante da Amazônia Colombiana, Angelica Roja, coordenadora de Projeto na Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável (FCDS), apresentou o projeto de manejo florestal sustentável desenvolvido com as comunidades Guavaré. Ela relatou dificuldades enfrentadas pela iniciativa, com a falta de transportes, energia e tecnologia.

“Ainda precisamos fazer uma discussão ampla sobre as características da economia e a relação com a ciência e a tecnologia, com a segurança e os conflitos pelos recursos naturais”, disse.

Abordagem econômica

Segundo Danilo Fernandes, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), da Universidade Federal do Pará (UFPA), poucos economistas se envolvem com o tema, razão pela qual a bioeconomia sempre foi tratada como externalidade, quando a discussão para o desenvolvimento de conhecimento concentra-se no campo tecnológico.

“Para os acadêmicos só é economia quando é em grande escala. Os saberes tradicionais são um tipo de tecnologia que tem que ser entendido como economia”, observou.

Karina Pinasco, diretora da ONG Amazônicos Por La Amazônia (AMPA), concorda que o principal esforço não deve ser para levar o que se produz para fora e sim mantê-lo no local de origem. “Não necessitamos que as soluções venham de fora. Nós temos a solução, nós desenvolvemos a melhor economia circular”, afirmou.

 

Oportunidade de negócios

O CEO da empresa peruana Forest Bambu, Noelli Trillo, apresentou uma visão empresarial da bioeconomia a partir da gestão integral do bambu, com atuação na produção de remédios, cosméticos e artesanato. “Apesar da pressão para a instalação de outras plantações, como cacau, abacaxi e soja, que degradam o solo, escolhemos o bambu que recupera e gera novos recursos”, disse Trillo.

Para os especialistas que participaram do debate, fatores como a relação do homem com a floresta, as queimadas e seu impacto no clima, a necessidade de investimentos públicos na preservação e no combate à violência causada por conflito de interesses produzem impactos diretos no desenvolvimento da bioeconomia no território amazônico. “É preciso convergência aos temas que envolvem a Amazônia, que têm relevância geopolítica”, Ivoneide Cardozo.

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